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Da colonialidade às lutas dos movimentos negros

Lutar (por direitos constitucionais) é um verbo presente nas experiências de vida de todas as pessoas pretas das nações africanas e diásporas, militantes ou não. No plano individual ou coletivo, nas experiências de foro íntimo ou em organizações da sociedade civil, pessoas pretas e pretos obrigatoriamente lidam, no dia a dia, com o racismo e seus impactos psicológicos, sociais, políticos, físicos, afetivos e ideológicos, dentre outros prejuízos à saúde e desenvolvimento humano.

O racismo como conhecemos hoje é produto das mutações e simbioses socioculturais intimamente ligadas aos valores e princípios da colonialidade. De acordo com Aníbal Quijano, a raça é uma construção mental que expressa a experiência básica da dominação colonial. O sociólogo peruano diz que desde o início da exploração das Américas, e da construção do capitalismo colonial/moderno e eurocentrado, a noção racista permeia as dimensões mais importantes do poder mundial, incluindo o eurocentrismo enquanto racionalidade hegemônica. A colonialidade, portanto, é um termo cunhado a partir da identificação destes elementos socioculturais que estruturam a racionalidade, quer sejam os legados do colonialismo daquela época.

Do século XV para cá o avanço tecnológico, as guerras, os modelos socioeconômicos, políticos, os costumes, as culturas, e de maneira mais ampla, a racionalidade do ser humano, mudou radicalmente. Talvez uma das poucas coisas que não mudaram de lá para cá foi a lógica por trás da racionalidade hegemônica da humanidade. Desde o início da colonização europeia, a noção de raça, ou melhor definindo, o racismo, têm sido o organizador primeiro das racionalidades, sobretudo na América Latina e, especificamente, no Brasil.

“América e o oceano Atlântico são incorporados ao imaginário de mundo europeu, pela primeira vez na história, uma visão global do que seria o planeta torna-se disponível (Fonte: Mignolo, 2005:77).” (Carlos Walter Porto-Gonçalves & Pedro de Araújo Quental, em: https://polis.revues.org/3749)

Deste modo, lutar contra o racismo significa em uma leitura atenta e sagaz dos fatos, lutar e superar esta lógica racista organizadora das racionalidades hegemônicas. O racismo seria este legado do colonialismo europeu, definida como colonialidade, introjetada profundamente na cultura ocidental por meio das suas estruturas estéticas, dos seus valores, das suas normas, modelos, regras, e até das suas leis, ou melhor, da operação discriminatória das leis.

Quanto mais a sociedade se complexifica, mais os elementos da colonialidade e do racismo se imbricam e se reorganizam em novos códigos, valores e conformações estéticas, para atenderem aos anseios da maioria da população, dito senso comum ou hegemonia colonizada.

Os movimentos negros lidam com esta realidade disputando valores, estéticas, leis, e produzindo outros modelos e referências para os diversos contextos da vida social que substituam os modelos discriminatórios atualmente vigentes enquanto norma. Um exemplo clássico é o estereótipo do suspeito ou do criminoso, basicamente uma pessoa negra, provavelmente um homem negro na faixa etária dos 15 a 25 – 35 anos, de cor preta, com cabelos crespos, e traços fenotípicos marcadamente africanos. O estereótipo do criminoso habita o imaginário (subconsciente) do cidadão comum, de senso comum, como um legado cultural do colonialismo e um produto atualizado da colonialidade vigente. Os movimentos negros têm trabalhado nesta pauta a partir da bandeira de luta do enfrentamento ao genocídio da juventude negra, para citar um exemplo. As estratégias de luta têm sido diversificadas, a depender das características dos grupos organizados, óra a partir de marchas, óra a partir de eventos culturais, óra a partir de textos publicados em diferentes veículos, organização de conferências e “diálogos” com o poder público.

É fundamental atentar ao seguinte fato: na medida em que a sociedade começou a se complexificar em rítmo hiperbólico, sobretudo com o advento das mídias digitais e redes sociais virtuais, no Brasil a partir dos anos 90 com a popularização dos computadores residenciais e da internet, o compartilhamento de informações e opiniões pessoais e institucionais passou de escalas locais e regionais, para escalas nacionais e globais. Os movimentos negros de lá para cá mudaram muito, os movimentos sociais de forma geral tiveram que se reorganizar a partir desta nova realidade social, e a militância virtual passou a ser uma importante estratégia política de luta contra o racismo, principalmente considerando a disputa de elementos culturais na tentativa de instaurar uma racionalidade contra-hegemônica, diferente da colonialidade.

Hoje, vivemos este momento de mudanças e complexificações em ritmo intenso. Muitas contradições são geradas, sobretudo pela confusão e falta de definição do que é público em comparação ao que é privado, do que é coletivo em comparação ao que é individual, dentre outras dificuldades geradas pela cultura digital. A opinião de uma pessoa famosa quando publicizada em uma rede social, a depender da sua fama, influência e poder para persuasão social, pode facilmente ser entendida como as alíneas de todo um movimento político, quando na verdade representam apenas opiniões pessoais. Esta problemática produzida pela dinâmica das sociabilidades das\nas redes sociais traduz-se em um importante fator de confundimento, e muitos equívocos são gerados a partir daí, servindo para fortalecer a racionalidade racista e colonial. Talvez o cuidado com a informação, e a qualidade das publicações, sobretudo de pessoas conhecidas, lideranças dos movimentos sociais, pessoas influentes, precise ser cuidadosamente pensada a fim de não servirem para enfraquecer os próprios movimentos que fazem parte ou são simpatizantes.

São notórias as intensas e violentas disputas pela racionalidade na política, onde alguns políticos abertamente constroem discursos homofóbicos, machistas e racistas, e, por incrível que pareça, figuram entre os mais votados. A disputa pela racionalidade, hoje, atinge estes patamares de acriticidade e violência sugerindo muita atenção, haja vista a permeabilidade das mentes das pessoas que representam o senso comum, e que têm introjetado tais elementos culturais. O desafio dos movimentos negros e dos demais movimentos por direitos humanos está em vencer a disputa pela racionalidade das pessoas comuns, mudando a condição de povos de mentes colonizadas e subconsciente racista como sugeriu Martiniano José da Silva no livro Racismo à Brasileira (1985), para povos de mentes autodeterminadas cujo respeito à diversidade e a igualdade social sejam elementos hologramáticos culturais do subconsciente e da construção do imaginário.

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Professor, profissional de educação física, mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina. Dedicado a estudos sobre Corporeidade, Relações Raciais, Estudos Sociocognitivos, Colonialidade, e Educação. Consultor técnico para políticas de esportes, colunista, e programador de atividades esportivas e culturais. Ativista, atuando em diversos movimentos sociais e eventos contra o racismo e violências correlatas desde 2004.

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