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Identidade Negra X Identidades de Consumo: Por um Empoderamento Verdadeiro

Atualmente, temas muito importantes para a superação do racismo estão em voga, sendo discutidos e explorados, em diferentes espaços de difusão cultural e construção de políticas locais e regionais. Diversas organizações não-governamentais e governamentais, movimentos sociais, comunidades acadêmicas, empresas, debruçando-se sobre estes temas, constroem eventos e fazem ações que reforçam identidades humanas historicamente marginalizadas como a identidade negra (identidade étnico racial), construída em contraposição ao racismo, ou a identidade feminina (identidade de gênero), construída em contraposição ao machismo e a cultura do estupro, ou ainda as identidades LGBT’s, construídas em contraposição a violência e intolerância, e finalmente as  identidades periféricas (identidade de classes sociais), construídas em contraposição aos preconceitos contra os moradores das periferias, favelas e morros.

Organizações de diversas naturezas e objetivos discutem, e/ou exploram, sobretudo as identidades híbridas, mais complexas do que as supracitadas porque são resultados de associações das tensões sociais que produzem significações de duas ou mais identidades, como a identidade das mulheres negras (mulher e negra), fruto da disputa entre as significações de gênero (ser mulher no enfrentamento ao machismo) e da identidade étnico racial (ser negra no enfrentamento ao racismo). Assim, os movimentos de mulheres negras produzem estes processos de significações mais complexas que formam estas identidades hibridas (mulher e negra), que ainda podem se complexificar mais quando significações de outras identificações se somam a convergência deste sistema identitário (simbólico), como as identidades LGBT’s, resultando na identidade das mulheres, negras e gays, por exemplo. Aqui, é importante atentarmos para o fato de que não só os movimentos sociais produzem identidades, mas também, e principalmente, as empresas do mainstream dos mercados consumidores, que não só as produzem mas também exploram as nossas identidades humanas, nos transformando em consumidores dos seus produtos, a partir da produção de narrativas e marketing de significações simbólicas com nossas experiências de vida e memória afetiva, para citar um caminho. Por que será que ter cabelo Black está na moda? Ou que batas, turbantes, e até ornamentos estão em alta? Mais para frente voltamos a esta questão.

As identidades humanas, nossas próprias identidades, dizem respeito aos lugares de fala que nos são significativos, às nossas crenças, e também aos nossos traumas, às nossas limitações e dificuldades, aos nossos medos. São formadas a partir de processos de significações – representações de um universo simbólico sociocultural – através das relações que estabelecemos com o mundo a nossa volta, quando nos identificamos aos sistemas simbólicos que representam estilos de vida, narrativas, posições político-ideológicas, e quaisquer outros lugares e identidades produzidas pelas dinâmicas socioculturais, que de alguma forma fazem sentido para nós. Construímos as nossas identidades a partir das relações que estabelecemos com pessoas, animais, com as mídias (livros, revistas, filmes, músicas, redes sociais, etc.), as artes, os esportes que praticamos, através do nosso próprio corpo (corporeidade).

Slide utilizado pelo prof. José Evaristo Silvério Netto, em aula de curso de pós-graduação sobre Educação Física, identidades e relações étnico-raciais, em outubro de 2017.

Este é um primeiro pilar: construímos nossas identidades a partir das relações com o mundo que nos rodeia, através do nosso corpo.

As relações que estabelecemos com o mundo a nossa volta sempre se dão a partir do nosso corpo, e o nosso corpo sempre estará dentro de um contexto sociocultural. Compreendemos com isso que as pessoas negras e brancas sentem o mundo de maneiras diferentes, porque o próprio mundo se relaciona diferente com elas, tendo como mediador o racismo, elemento estruturante da nossa sociedade, da nossa cultura, por conseguinte das nossas relações. Sendo negra(o), as relações estabelecidas com o mundo, mediadas pelo racismo, provocam a construção das identidades étnico raciais como um reforço à contraposição da destruição da nossa humanidade. Sendo uma pessoa branca, as relações impactadas pelo racismo lhe provocam à construir suas identidades a partir de uma lógica conhecida como branquitude, onde o seu corpo incorpora e identifica os elementos culturais racistas dentro de padrões de normalidade, construindo significações racistas que produzem sentidos como os estereótipos do suspeito (homem negro e bandido, perigoso, estuprador), o estereótipo da mulher disponível ao sexo (mulher negra é fogosa, faz sexo com qualquer homem), ou mesmo o estereótipo da feminista negra (mulher negra ativista não gosta dos homens, são bravas, gritam e são descontroladas).

Embora praticamente todas as pessoas não assumam a sua branquitude, poucas se sentem confortáveis andando na rua quando um homem negro se aproxima, ou quando em diálogo com uma feminista negra. É importante considerarmos que as identidades humanas são construídas a partir das relações que estabelecemos com o mundo, e que estas relações possuem fortes componentes afetivos e emocionais, portanto, possuem elementos que não são necessariamente conscientes e racionais.

Porém, antes de avançarmos, é fundamental atentar a um fenômeno social descrito por Stuart Hall como A Crise de Identidade na Pós Modernidade. Abaixo segue uma definição de pós-modernidade do historiador e jornalista Juremir Machado da Silva, extraída do blog Colunas Tortas:

Pós-modernidade, segundo o professor, pode ser descrita como o momento em que (tomando Lyotard como influência) todas as grandes narrativas entram em crise. As grandes narrativas são as grandes explicações sobre o mundo, sobre a história, sobre a vida e sobre o futuro, entre as mais influentes: o marxismo, o cristianismo (e as religiões em geral), o iluminismo com o sonho da sociedade racional e etc e etc. Essas narrativas só podem ser chamadas de narrativas na percepção da pós-modernidade, pois para si, elas são o fundamento do mundo, a estrutura última da realidade – a teoria da história marxista não é somente uma narrativa, mas uma tentativa de explicação universal da história, da mesma forma, o projeto iluminista visava a universalização da razão e o cristianismo a universalização de seu próprio Deus. Desta forma, segundo Juremir Machado, o núcleo da pós-modernidade (em resumo) é a negação de qualquer fundação. Não há um “real realmente real”, mas unicamente narrativas que estruturam a realidade. Sendo assim, toda e qualquer visão de mundo, quando tenta ser verdade, se coloca em uma posição totalitária em relação àqueles que estão sendo sujeitados por ela.” (no endereço: http://colunastortas.com.br/2014/05/15/pos-modernidade/).

A compreensão da pós-modernidade não é fácil, e ainda por cima causa polêmica. Por isso vou assumir o trecho acima como ponto de partida. Outra importante escolha para este texto foi a leitura de Stuart Hall, teórico cultural e sociólogo, referência maior na área de estudos culturais para a compreensão das identidades e relações de raça e gênero, além da ampliação de outros campos de conhecimento nesta área de concentração de estudos.

No primeiro capítulo do seu livro, intitulado ‘A Identidade Cultural na Pós-Modernidade’, Hall trabalha com uma perspectiva histórica das noções sociais de sujeito construídas em diferentes momentos desde o século XVI até os tempos atuais. Basicamente, ele traduz três noções de sujeito: Sujeito do Iluminismo (sec. XVI-XVIII); Sujeito Sociológico (sec. XIX-XX); e Sujeito Pós-Moderno (após 1950). O sujeito do iluminismo (sec. XVI-XVIII) era masculino, altamente individualista, e tinha um núcleo interior fortemente influenciado nos princípios cartesianos (“cogito, ergo sum”), que reduziam o homem às suas essências (partes menores) quais sejam a matéria e a mente, com predomínio da mente sobre a matéria. A noção de sujeito da época trazia a ideia que homem se constitui a partir dos seus próprios pensamentos. Após este momento, houve o deslocamento da noção de sujeito para o sujeito sociológico (sec. XIX-XX) a partir da complexificação das sociedades ditas modernas. As cidades estavam sendo organizadas, assim como as governanças nacionais em Estado-Nação. Com as novas dinâmicas sociais, as relações sociais passaram a contribuir para uma “nova” noção de sujeito que continuou a ser masculino com um núcleo interior, mas que agora não se constituía apenas dos seus pensamentos, mas também a partir da interação com o mundo, havendo uma subjetividade construída a partir das relações. Finalmente, chegamos na noção do sujeito pós-moderno (a partir de 1950), também chamado de sujeito da modernidade tardia, que é o nosso objeto a ser compreendido com mais profundidade. A noção de sujeito pós-moderno, diferente das noções anteriores, não têm gênero, nem possui um núcleo interno. Pelo contrário, possui núcleos fragmentados, ou não-núcleos, e produz identidades variáveis a partir de relações não harmônicas com os sistemas simbólicos das dinâmicas e relações sociais.

Slide utilizado pelo prof. José Evaristo Silvério Netto, em aula de curso de pós-graduação sobre Educação Física, identidades e relações étnico-raciais, em outubro de 2017.

As identidades produzidas a partir desta nova noção de sujeito pós-moderno são identidades instáveis, muito variadas e complexas. Em grande medida atenderam e ainda atendem as experiências socioculturais dos grupos sociais historicamente marginalizados, que com o avanço tecnológico e o aprofundamento das dinâmicas da globalização começaram a se organizar de forma cada vez mais potente. As informações e produções culturais que antes eram fruídas regionalmente, passaram a transitar globalmente.

Lembro-me da minha infância e adolescência, quando tinha mais ou menos 12 anos, e gostava de música eletrônica. Era início dos anos 90, e eu, uma criança negra do interior do estado de São Paulo, estava em conexão com um universo simbólico que representava os estilos músicais House, também conhecido como “Poperô”, a Euro Dance, e mais tarde o Rap. Estes foram processos de significação que me permitiram repensar minha identidade étnico-racial, meu lugar na sociedade da época, assim como meus círculos de amizade, minha forma de vestir, de falar, e meus padrões de consumo.

Com a surgimento da internet as interconexões entre pessoas de diferentes partes do planeta tornaram-se realidades acessíveis, e começamos a lidar com fluxos gigantescos de informações circulantes e acessíveis, a um clique de distância.

De acordo com Stuart Hall, a globalização trouxe um aumento violento dos sistemas de significação e representação cultural, de diversas matrizes culturais até então relegadas a contrução de identidades locais, regionais. Estes novos sistemas de representação cultural começaram a impactar as identidades hegemônicas, fazendo surgir novas identidades, diferentes, híbridas. Paralelamente a estas tensões identitárias, que fizeram as identidades tradicionais entrar em colapso, houveram profundos processos de descontinuidade das tradições socioculturais, familiares, regionais e até nacionais. A globalização, ao mesmo tempo que provocou e provoca deslocamentos de identidades, e novos processos de significação, contraditoriamente permite gerar homogeneização a partir das interconexões entre as pessoas, porque elas passam a ser captadas e mediadas pelos grandes mercados e industrias.

Aqui, temos um ponto fundamental: nossas identidades passam a ser manipuladas pelas industrias que têm por finalidade nos transformar em consumidores dos seus produtos. Neste ponto, entramos em um tema fundamental, sobre a manipulação das nossas identidades pelas indústrias do grande mercado, que se refere à nossa agência, à liberdade das nossas próprias escolhas por consumir os produtos que consumimos e até por nos identificarmos com as identidades que assumimos em detrimento aos sistemas simbólicos criados por empresas para fazer com que nos enxerguemos em seus produtos. Será que nossas identidades são livres das interferências das industrias que, desde que somos bebês, manipulam-nos a partir dos seus estímulos à apropriação dos nossos sentidos?

Desde que nascemos, ou até mesmo antes de nascermos, fomos estimulados a virar consumidores dos produtos das industrias que se apropriaram dos sentidos humanos. As industrias do setor alimentício, por exemplo, produzem fortes processos de significação, atingindo nossos sentidos gustativos e, impactando nas nossas construções identitárias a partir do viés da alimentação, através da sugestão de que alimentos processados e ultraprocessados são mais gostosos e mais nutritivos do que alimentos naturais. Seus alvos são sobretudo crianças e jovens. Seus produtos, geralmente doces, fast-foods, refrigerantes, entre outros tipos (calorias, sal, açúcar, etc.), são oferecidos as crianças desde tenra idade, e por serem hiperpalatáveis, ou seja, acentuam muito sua palatabilidade ou aceitação pelo paladar da maioria da população, danificam os processos que sinalizam o apetite e a saciedade e provocam o consumo excessivo e despercebido.

A este processo damos o nome de Apropriação Privada do Conhecimento, neste caso ligado ao sentido gustativo. Desta forma, as crianças aprendem deste o início da vida, desde as primeiras relações com o mundo, a partir do seu corpo neste contexto de hierarquias simbólicas, que o que é gostoso é comer doces ultraprocessados e beber refrigerante. As crianças viram jovens, e depois adultos, sem a possibilidade de reconfigurar estas “significações privadas” que se apropriaram dos corpos destas pessoas. Assim ocorre com as industrias fonográficas, com as industrias midiáticas, com as indústrias da moda, com as indústrias de cosméticos e perfumes, com as indústrias farmacêuticas, com as indústrias da informação, e todas as outras que se apropriam dos nossos cinco sentidos: tato, visão, audição, palato e olfato. Será mesmo que quando escolhemos comer algo, ou quando escolhemos comprar um produto qualquer, estamos escolhendo a partir de um repertório vasto de experiências, ou a partir da lógica de apropriação privada do nosso conhecimento?

Ora, se as nossas identidades são formadas dentro de um paradigma de sujeito pós-moderno, onde o fluxo de sistemas simbólicos e identitários é intenso e muda a todo instante dada a quantidade de informações e de relações que construímos todos os dias, e estas relações têm relação direta com nossos corpos, negros e brancos, e com o racismo que é um dos seus elementos estruturantes, é bem provável que o racismo também impacte nos processos de apropriação privada dos nossos conhecimentos, e interfira nas nossas escolhas e identidades de consumo.

As redes sociais são um festival de construção de novas e voláteis identidades. Muitos eventos são pensados por empresas que procuram fidelizar consumidores a partir da apropriação privada dos sentidos humanos. Imagino que uma das estratégias destas empresas seja conquistar lideranças identitárias de comunidades de pessoas que representam nichos de mercado que estas empresas desejam colonizar. Não que isso seja ruim ou errado. O que chamo atenção é com o fato de termos ciência ou não destes processos, para conseguirmos fazer escolhas realmente conscientes na hora de consumir tais produtos, ou nos identificarmos com determinados movimentos identitários, quaisquer que sejam. Se não damos conta dos processos pelos quais nos identificamos aos sistemas simbólicos que nos acediam, com suas narrativas, estéticas, discursos e práxis, provavelmente também não damos conta das identificações que estabelecemos com muitos produtos das industrias que os posicionam a partir destas mesmas identidades, nos fazendo consumidores compulsórios e inconscientes. Quando olhamos para o cenário político brasileiro, o que vemos não seria reflexo destes processos? Qual a outra justificativa para o fato de o prefeito da cidade de São Paulo ter sido eleito com o voto de uma parcela importante dos cidadãos periféricos da cidade? Realmente, é um processo predador!

As industrias investem na construção marqueteira de novos sistemas simbólicos e culturais, na tentativa de que as pessoas se identifiquem e criem suas “identidades pós-modernas” baseadas em seus produtos, ao invés de criarem suas identidades baseadas em suas experiências de vida. As redes sociais são experts nisso!

O estilo de vida contemporâneo leva a isso, pois é cada vez mais difícil as pessoas se encontrarem, terem momentos de lazer juntas, de corpo presente. Cada vez mais as pessoas se prendem aos seus avatares nas redes sociais, inclusive trabalhando e tirando o seu sustento destas relações, de modo que a própria relação das redes sociais, em si mesma, já foi a um bom tempo apropriada pelas industrias da tecnologia. Este cenário representa uma profunda precarização das identidades humanas, e quanto mais precárias as nossas identidades, mais permeáveis elas se tornam ás expressões da colonialidade, a citar o racismo, o machismo, e outras violências.

Este debate é muito complexo, porque pelo volume de informação circulante sobre o racismo, o machismo, e sobre os movimentos por direitos humanos, temos a sensação de estarmos mais protegidos, mais conscientes destes processos perversos que nos desumanizam. Mas o contrário é que é verdadeiro, pois o excesso de informações sobre tudo, associado aos processos de apropriação privada do conhecimento, terminam por precarizar as relações que estabelecemos com o mundo, empobrecendo nossa corporeidade, nossas identificações simbólicas e culturais, e resultando em identidades altamente contraditórias, frágeis e “da moda”, do momento, atreladas a lógica dos mercados consumidores. Assim, colonizam nossas mentes! A partir deste percurso teórico, consigo entender como é possível haver problemas sérios entre comunidades do movimento negro não feminista e movimento negro feminista. O assunto é polêmico, esta em voga, e não é objetivo deste texto abordá-lo, mas é importante para a análise considerarmos que é um fenômeno muito contraditório. Ambas as frentes de ativismo buscam, em última análise, a superação das estruturas da colonialidade, fonte de violências que produzem o racismo e o machismo. Machismo que, por sua vez, incide de forma muito mais violenta sobre as mulheres negras, em detrimento das mulheres não negras. Então, porque existe um abismo entre estas identidades no seio dos movimentos sociais? Aqui, creio que chegamos no âmago deste debate, título do texto: Por um Empoderamento Verdadeiro.

Se por um lado vivemos uma época onde as identidades são precárias e construídas por meio de processos de identificações culturais e simbólicas profundamente contraditórias, mediadas pela lógica de mercado da Apropriação Privada do Conhecimento, uma lógica sobretudo racista, machista e colonizante, é preciso criarmos os nossos próprios processos para uma Apropriação Autocentrada do Conhecimento. Em tempo de parar de machucarmo-nos, precisamos centrar nossas relações e apropriações em experiências que nos provoquem determinações coletivas que, de fato, nos empoderem, nos fortaleçam, não a partir da lógica da exclusão do que pensa diferente de mim, mas a partir do respeito, da empatia e da localização da colonialidade enquanto alvo a ser superado. “Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicas, e parecem flutuar livremente”. (Stuart Hall; no livro: A Identidade Cultural na Pós-Modernidade). É preciso cautela com as identidades produzidas no calor dos debates das redes sociais virtuais, dos textos dos blogs, e até dos memes que circulam na “velocidade da luz”, de tela em tela, de mente em mente. É fundamental reunirmo-nos em roda, de corpo presente, para conversar sobre quem somos, sobre o que queremos. É importante, mais do que o conteúdo da conversa, exercitarmos a própria conversa, o próprio ato de conversar, de corpo presente, olhando-nos nos olhos, dando-nos as mãos, brincando, dançando, vadiando. O exercício do corpo presente produz novos e importantes processos de significações, a partir do exercício da corporeidade, a partir dos nossos sentidos humanos. Nosso corpo precisa participar cada vez mais dos processos de construção das nossas identidades, participar ativamente. Caso contrário, estes processos serão cada vez mais precarizados, como estão sendo.

Para além de estarmos juntos em roda, de corpos presentes, é necessário pensarmos neste espaço, nestas rodas, como espaços legitimadores das nossas experiências identitárias, para que as redes sociais virtuais não tomem este lugar de nós. Tem muitos coletivos fazendo isso, saraus de poesias, coletivos artísticos, comunidades de matrizes africanas e afro-brasileiras, mas ainda nos parece que as redes sociais são os locais privilegiados de legitimação das nossas identidades, e não os locais onde exercitamos nossa corporeidade. As “hiperinterconexões” provocadas pelas redes sociais nos dão a sensação de legitimidade, a partir do poder da publicização, onde o que se posta se torna público para o mundo todo. Esta miragem é sedutora, e mexe com as nossas estruturas afetivas e emocionais, nos seduzindo a partir do flerte com a possibilidade de sermos admirados por multidões. Na sociologia, dá-se o nome capital social. Como uma vitrine para o mundo, as redes sociais legitimam os padrões de normalidade e negação do que é diferente do que foi aceito como norma. Talvez seja isso a causa de tantos ruídos entre diferentes comunidades de ativistas, que ao invés de se reunirem de corpo presente para construírem um empoderamento verdadeiramente consciente, estão jogando o jogo de cartas marcadas da colonialidade e da lógica da apropriação privada e racista do conhecimento.

Nea onnim no sua a, ohu – Símbolo do conhecimento, da educação através da vida e da contínua busca pelo saber. Simbologia Adinkra dos Axantes – Gana, Adinkra são símbolos que representam provérbios e aforismos.

Quando conseguirmos subverter esta lógica, quando nossos corpos e corporeidades estiverem no centro das nossas experiências e relações de significações, conseguiremos vislumbrar a síntese de uma apropriação autocentrada do conhecimento que permita-nos fazer escolhas e exercitar de um poder real, consciente e libertador das expressões da colonialidade do saber.

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Professor, profissional de educação física, mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina. Dedicado a estudos sobre Corporeidade, Relações Raciais, Estudos Sociocognitivos, Colonialidade, e Educação. Consultor técnico para políticas de esportes, colunista, e programador de atividades esportivas e culturais. Ativista, atuando em diversos movimentos sociais e eventos contra o racismo e violências correlatas desde 2004.

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