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Não era apenas o corpo nu

A arte tem um papel muito forte na história da humanidade. Desde o seu demarcador de transições históricas, como a arte renascentista que cunhou fortemente o fim da trevas com o aparecimento de obras pagãs substituindo a arte sacra imposta pela Igreja Católica, quanto, enquanto instrumento de dominação, como no cinema estadunidense e até como distinção social dentro de uma suposto gosto refinado em classes dominantes.

A censura à arte também é histórica. Muitos puristas sempre confrontaram a estética vanguardista com uma forma vigente de realizar suas manifestações. Foi assim com Vivaldi, por exemplo. Suas obras eram consideradas “frívolas” no Século XVIII e por isso sofreu perseguições. Assim como os tão adorados e valorizados impressionistas foram rejeitados em meados do Século XIX por romperem com padrões do realismo.

Mas essa censura usada como cortina de fumaça para um ambiente político deplorável, para esconder o debate sobre uma conjuntura social escandalosa, não me recordo nos anais da história. E essa censura vinda de grupos sem nenhuma condição de elaborar qualquer crítica estética à arte, menos ainda. Bem como ser a figura da nudez, do corpo que milenarmente – inclusive em arte sacra – encanta e encantou tantos povos e quebrou tabus necessários para a evolução da humanidade como mote de manifestações absolutamente descabidas e preconceituosas.

Para além disso, usar o discurso da pedofilia como balizador de uma intervenção aberta, mas não sem controle, na presença de público, revela a pouca capacidade de elaboração, abstração, das pessoas que utilizam de julgamentos morais, típicos do senso comum, como seus nortes. Gente que não percebe nem a arte, nem a manipulação midiática a que estão submetidos. Se convertem em uma manada de alienados que ajudam na ofuscação da real situação em quem passamos em nosso país.

Para o discursos sobre a pedofilia apenas podemos citar que quase a totalidade da violações contra vulneráveis acontece dentro de suas próprias casas, escolas, em meio a pessoas conhecidas que utilizam de autoridade e confiança para praticarem seus crimes. Além disso, o discurso hipócrita e persecutório de quem não teve a arte como sensibilizador das próprias percepções, sensações em relação ao mundo, as pessoas, a sociedade se mostra absolutamente vazio, sem nenhum tipo de credibilidade.

Essa situação serve apenas para demonstrar o tamanho da ignorância, ódio, alienação e insensibilidade do nosso povo. E que a arte não pode ser bode expiatório para justificar as mazelas em que vivemos. Ao contrário, a arte tem um papel fundamental na quebra de tabus e abertura de consciência, que se bem utilizados poderiam ser um caminho para sairmos da lama que nos encontramos e apenas afundamos.

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Baiano, Educador, docente de ética e história da arte, Direitos Humanos e educação libertária. Cientista Social, documentarista, resenhista, crítico e curador, mas sempre militante.

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