Últimos Artigos dos Colunistas

O audiovisual como ferramenta de transformação social

A sociedade como a conhecemos hoje formou-se ao longo dos séculos e dividiu-se em camadas sociais. Alguns grupos se sobrepuseram a outros. O uso da força foi uma das estratégias, e, também a busca do conhecimento e sua sonegação para os demais. Aquele que possui acesso às descobertas, às tecnologias, aquele que detém formas de saber, conhecimento, pode usar isso em favor da maioria, ou em favor  de poucos. Têm a chance de alcançar o poder, diferentemente dos demais que encontram-se alienados ou sem acesso a estes recursos. Por isso, em certas sociedades, normalmente as mais precárias, torna-se tão importante para aqueles que detém o poder e que usam este poder para se sobrepor aos outros, manter grandes parcelas à margem do conhecimento ou do saber. Por isso é tão importante deter o poder sobre as tecnologias e também sobre as ferramentas de elaboração de um discurso. Isso tem relação com a ideia de que o conhecimento é poder.

Quando o cinema nasceu em 1895 a humanidade chegou num ponto de apreensão da realidade assustador. Imagens de fatos, ambientes, pessoas, máquinas, animais. Tudo podia ser capturado pela imagem fotográfica numa velocidade de 1/24 avos de segundo e depois poderia ser projetado a 24 imagens por segundo de maneira a reconstituir o movimento do que foi capturado pela câmera-projetor. A tecnologia mais próxima do cinema no que diz respeito a sua vocação realista era, antes, a fotografia. No entanto, foi com o cinema que conseguimos dar movimento às imagens fotográficas, reproduzindo portanto, a vida real! A partir desta magia de reter e reproduzir o real, o cinema iria se tornar, num futuro muito próximo, uma das mais poderosas ferramentas de elaboração de um discurso, de propagação de mensagens, ideias, comportamentos e pontos de vista. Justamente por sua vocação realista, dando a impressão incontestável de que as imagens projetadas são cópias exatas da realidade.

O cinema já nasceu fadado a servir à necessidade humana de se comunicar, narrar e também, possibilidade de convencer, moldar. Isto quer dizer que aquele que detivesse a possibilidade de utilizar desta ferramenta, deteria uma importante estratégia na busca de uma espécie de poder. O poder do convencimento. Da articulação de ideias e mensagens.

Imagem do filme ‘Viagem à Lua ‘, de Georges Méliès

Em seus primeiros momentos, o que o cinema fez foi testar o fenômeno físico de impressão da luz numa película fotográfica e depois projetar essas imagens pra uma plateia estupefata. Inicialmente os filmes não elaboravam discursos. Captavam cenas do cotidiano e reproduziam. Mas logo vieram estórias encenadas normalmente organizadas em formato de peças teatrais filmadas que começaram a ser exibidas também para o público. Erma às vezes adaptações de uma obra preexistente no teatro ou na literatura. Assim surgiram os primeiros filmes ficcionais. Também cineastas como Méliès, que realizou mais de 500 filmes como “Viagem a Lua”, começaram a testar possibilidades desta nova ferramenta, buscando efeitos óticos, introduzindo estórias fantásticas, criadas para o cinema, que começaram a ser mostradas com efeitos impressionantes para a época. Isso tudo ainda início do Século XX.

A tendência realista do cinema somada aos avanços tecnológicos (surgimento do cinema sonoro, da cor na película, de câmeras e equipamentos mais avançados) e à necessidade de expressão e de comunicação do ser humano, impulsionou o cinema à poderosa capacidade de criação de uma linguagem audiovisual e, ao mesmo tempo, a possibilidade da formação de um discurso cinematográfico, que hoje se dissemina no audiovisual como um todo. A linguagem cinematográfica se dividiu basicamente em duas tendências gerais mais importantes. A daqueles que buscaram o que se denominou de transparência da elaboração do discurso, isto é, aqueles que esconderam as estratégias do discurso e buscaram o máximo de ilusão de continuidade, ou de realismo, o máximo de invisibilidade das intenções e pontos de vista do realizador; e aqueles que buscaram a opacidade do discurso, ou seja, os que denunciaram as estratégias de comunicação e que revelaram a natureza ilusória do cinema e assim buscaram desconstruir e revelar a técnica do discurso, deixando mais evidente ao espectador de que a obra assistida é permeada por um ponto de vista, por uma mensagem a ser propagada. Às vezes essa mensagem pertence a um autor ou artista independente, que busca refletir, fazer sentir, mostrar ao outro, algo inusitado e novo ou até questionar. É um ponto de vista pessoal. Sempre permeado por influências culturais, ideológicas, artísticas. Outras vezes, pode propagar idéias e conceitos que sirvam à sustentação de um grupo ou que sirvam a interesses os mais diversos possíveis: interesses políticos, culturais ou econômicos por exemplo.

A ficção cria mundos aleatórios e ilusórios onde tudo é possível, mas mesmo nas estórias mais fantásticas, dentro da técnica da invisibilidade do discurso, procura-se sempre parecer verossímil, convincente. E para isso desenvolveram-se inúmeras estratégias de elaboração de discurso que foram compondo a linguagem audiovisual. No documentário, também busca-se a elaboração de um discurso, por meio dos recursos audiovisuais, utilizando-se de material captado com as pessoas e coisas reais. Mostrando o real, mas de acordo com uma lógica discursiva. Em sua essência, mesmo os documentários, normalmente apresentam pontos de vista do realizador. Ele, por sua natureza discursiva, busca defender ou denunciar algo. Convencer o espectador de algo. Isso faz parte da premissa de se fazer um filme. Mostrar um ponto de vista.

Quando vamos retratar fatos que ocorreram ou que ocorrem cotidianamente podemos ser fiéis ou não à realidade. Mesmo as imagens realistas podem mentir. Mesmo que estas imagens não tenham sido manipuladas posteriormente com recursos digitais por exemplo. A ordem em que estas imagens são colocadas, a duração destas imagens, a relação destas imagens com outras imagens ou a relação das imagens com o som, com a música, tudo isso junto, faz com que seja possível mostrar a realidade de um certo jeito que possamos imprimir o sentido que queremos sobre elas. É o que muita gente já chamou de tirar de contexto e passar uma idéia, um significado. Podemos até mentir a partir de algo real. Ou podemos revelar algo que ninguém tinha notado. Apresentando uma opinião. Mas sempre, o nosso ponto de vista. Podemos também expressar idéias abstratas e sensações na busca da elaboração artística mais plena. Assim como um poema por exemplo. As possibilidades são inúmeras.

Se alguém te conta uma estória, oralmente, você pode acreditar nela ou não. Mas se alguém te mostra uma estória, com imagens captadas com extremo realismo, música emotiva e manipulação das imagens na montagem, qual a sua defesa ou possibilidade de contestação da mensagem que está recebendo? Desde filmes de ficção até matérias jornalísticas, podemos sempre contar uma estória, a nossa versão.

Por isso, realizar filmes, entender e discutir a técnica audiovisual torna-se uma possível e importante ferramenta de transformação. Assim como dar oportunidade de fala a outros grupos, normalmente excluídos do acesso ao ensino do audiovisual, e assistir na tela novas estórias e novas imagens pouco representada no universo audiovisual. Entender e decodificar o audiovisual para podermos enxergar as possibilidades discursivas de tudo que consumimos e recebemos de diversas fontes.

É importante entender também que nem sempre o discurso articula pontos de vistas de forma honesta ou clara. Normalmente, o propagador do discurso não revela as estratégias deste mesmo discurso. Através de nossa empatia com os protagonistas de nossos filmes, podemos nos identificar de diversas formas, com inúmeros pontos de vista. Inclusive os que não são nossos… Isto torna o espectador uma vítima, ou um zumbi, pronto a tudo assimilar sem visão crítica? Não creio. Mas ter consciência de que tudo pode ser visto com algum distanciamento e reflexão e entender a técnica audiovisual ou até fazer filmes, passam a ser uma maneira eficaz de decodificar o discurso.

Acima de tudo, aprender a “ler”  ou assistir de maneira crítica . A única coisa que não podemos é permanecer ingênuos e passivos diante do que ouvimos, lemos ou vemos nesta enxurrada de audiovisual que recebemos. No meio disto tudo, alguns filmes inclusive nos mostram algo novo e até nos ajudam a refletir e continuar pensando. E pensar é poder.

Deixe seu comentário:

Cineasta formado na ECA-USP, é produtor cinematográfico de curtas, médias, longas metragens, séries pra TV e telefilme. Fundou a produtora Cinegrama Filmes e coordena as Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual, atuando em diversas oficinas voltadas para a periferia desde 2001 .

%d blogueiros gostam disto: