Estreia na Alemanha

Quarta, 11 de Julho de 2018
Escrito por Leila B Moura

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 Foi só começar a escrever pra eu descobrir que um texto pessoal pode ser tão complicado quanto um texto acadêmico. Contar as experiências vividas em outro país para mim é, no mínimo, delicado.

Isso porque não me sinto no direito de fazer leituras generalizadas do país que estou e muito menos do país no qual meus pés pertencem.

Penso que comparações, por menores que sejam, podem ser carregadas de estereótipos, e fugir delas me parece um grande desafio, já que as experiências do presente automaticamente se conectam com experiências similares ou opostas do passado.

Toda experiência parte de uma visão singular de mundo e a minha não é nem de longe uma das melhores. Contudo, resolvi aceitar o convite feito pela May, administradora da página, pra contar um pouquinho do que está rolando por aqui.

Planejei a mudança com mais de um ano de antecedência, larguei o “bom emprego” e abandonei meu apartamento, com cada coisinha que eu havia conquistado ao longo dos anos e fui morar num quarto, na casa de uma amiga. Depois, voltei a morar com meus pais em Itaquera, bairro onde cresci. Tudo isso para economizar a grana, que estava contada. 

Passagens compradas! Comecei a me preparar para viagem e me despedir de São Paulo, cidade com mais de 11 milhões de habitantes, para morar em Kassel, uma cidade alemã, com aproximadamente de 200 mil.

Nesse tempo, eu vivi na minha terrinha experiências maravilhosas com a família; os amigos, colegas e amores; o sol; a praia; shows e atividades culturais. Cada momento parecia fantasia, tudo se tornou tão lindo de repente. Leonina que sou, vivi tudo com muita intensidade, o que dificutou ainda mais a minha própria partida. Porque se não for dramática, para mim não é despedida.

Nos últimos meses antes da viagem, cheguei a desejar que algo grandioso acontecesse em minha vida e me impedisse de viajar. Uma abdução, por exemplo.

Mas nenhum extraterrestre veio me buscar, nenhum meteoro caiu na terra para me impedir, respirei fundo, fechei as malas com todos os medos, inseguranças expectativas (minhas e dos seus amados) e, chegado o dia do voo, embarquei.

Até hoje estou tentando compreender as razões para eu ter vindo para Alemanha. Um dos motivos eu sei claramente. Surgiu uma oportunidade que eu nunca sonhei que pudesse existir em minha vida e então não me senti no direito de perdê-la. Minha alma de passarinho com certeza morreria, se eu o fizesse. 

Claro que cada experiência é uma experiência. Para mim, o processo de aceitação tem sido, de certa forma, meio ao contrário.

Cheguei aqui bloqueada, totalmente na defensiva. Ou melhor, pronta para o ataque, como quem chega à guerra. Com todas as minhas criticas em relação ao “primeiro mundo”, sabendo claramente que os países da Europa, só gozam dos seus milhares de privilégios, justamente por explorar países como o nosso, por exemplo.

Como esse assunto sempre me leva a longas discussões. Prometi a mim mesma que não falaria mais aleatoriamente sobre ele. Afinal de contas, aqui estou eu e não quero ser ingrata e nem sabotar (mais ainda) minhas próprias experiências.

E também porque ninguém merece ficar lendo e ouvindo tantas lamentações...

Como dizia nosso querido Belchior “Deixemos de coisas, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida, e nos arrasta moço sem ter visto a vida, ou coisa parecida...”

Trouxe na mala de mão apenas uma palavra em alemão: Scheiße, que significa merda. Em português “merda” é utilizada na linguagem teatral para desejar boa sorte aos atores antes de entrarem em cena. Em alemão significa só merda mesmo.

Em inglês utilizam a expressão “Break a Leg” (quebrar a perna), em alemão utilizam a expressão “Hals- und Beinbruch” que significa literalmente “Fratura no pescoço e perna” para desejar boa sorte nas estreias.

O fato é que a palavra Scheiße, apesar de não significar sorte, tem sido uma grande companheira. Ela me ajudou muito e ainda ajuda. Sempre que não consigo me expressar eu digo Scheiße.

Eu não tive o privilégio de aprender inglês na escola e as aulas que tive no ensino público, não ajudaram muito. Depois da graduação, meus esforços estavam em sua maior parte conectados ao trabalho para conquistar “oportunidades melhores na vida”.

Por conhecer uma única palavra em alemão e quase nenhuma em inglês, eu sofri um tanto quando cheguei aqui.

De vez em quando, é como se uma coisa falasse ao meu ouvido que eu não sou boa o suficiente. Essa coisa pode ser chamada de Ego, auto sabotagem, capiroto, chifrudo, príncipe do mal, sei lá. Só sei que vim com a paranoia de que todo o mundo (no mundo) falava inglês, menos eu. E essa crença limitante dificultou o meu processo de aprendizagem. Até eu descobrir que nem todas as pessoas do mundo falam inglês.

Me matriculei num curso intensivo de Alemão para estrangeiros e já no primeiro módulo, que tem a duração de dois meses, eu conheci pessoas de todos os cantos do mundo: China, Espanha, Rússia, Grécia, Síria, Somália, EUA, Tailândia, México, e por aí vai. “Não tem como dar certo”, alguém poderia pensar. Mas mesmo com essa mistura toda, funciona!

A necessidade e a disponibilidade para troca de experiências torna o ambiente acolhedor e permite trocas indescritíveis.

Eu não tinha dimensão do quanto às pessoas são criativas quando não sabem um idioma. A gente faz mimica, dança, ri, e quase chora muitas vezes, mas como tentar falar é a única opção, a gente fala, ou melhor, se comunica.

Apesar dessa troca positiva com alunos de outros cantos do mundo, decidi mudar de escola, principalmente porque  tive uma professora extremamente autoritária, que me deixava em pânico todos os dias. Um amigo querido a batizou de “dona Hitler”.

A troca de ambiente me proporcionou experiências ainda mais valiosas e imensuráveis. Praticamente 90% dos alunos na sala são refugiados.

Um colega do curso, com seus 50 anos de idade, me contou a sua experiência. Ele veio da Síria para Alemanha, com a esposa e duas filhas pequenas. Vieram de caminhão e passaram por diversos países, que recusaram a sua entrada.

Eles e muitos outros sobreviventes, de todas as idades, incluindo idosos e bebês, enfrentaram condições desumanas, necessidade de cuidados médicos, fome, sede e outras privações. Tudo isso para chegarem a um lugar onde eles teriam o direito de viver.

Embora informações como essas estejam disponíveis nos noticiários, é indescritível o sentimento de compartilhar humanidade. Dele eu levo comigo a dor nas suas palavras e o sorriso de desafogo e esperança do rosto.

Com certeza eu precisaria de muito mais do que essa apresentação para contar um pouco mais essas experiências.  Então esse é apenas o primeiro passo.

Não sou a pessoa mais otimista do mundo. Mas pretendo compartilhar um pouquinho da minha experiência, falar das diferenças culturais, oportunidades, facilidades, paranoias e curiosidades de viver por aqui.



Leila B Moura

Colunista

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Possuí formação e experiência no seguimento mercadológico, sua última atividade na área foi como Coordenadora de Trade Marketing. Concluiu o curso de pós-graduação em Gestão de Projetos Culturais no Celacc – USP em 2017, sendo seu principal interesse de pesquisa intervenções artísticas e culturais nos espaços públicos. De Itaquera - São Paulo para Alemanha. Atualmente mora em Kassel, estuda o idioma e vivencia aspectos culturais do país.


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